segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Borges, o mesmo e o outro


Borges, o mesmo e o outro, de Álvaro Alves de Faria, pela Escrituras

"Borges, o mesmo e o outro", da Coleção Ensaios Transversais da Escrituras Editora, é o relato com qualidades literárias inegáveis de uma rara entrevista concedida (concdida?) por Jorge Luis Borges ao jornalista, poeta e escritor brasileiro Álvaro Alves de Faria.
Começa-se a ler e termina-se em pouco tempo (54 páginas pequenas, mais 9 com retratos). Mas a sensação é de que se arrastaram dias, dias escuros e frios importunados pelo maldito barulho deste elevador que não pára...
Em setembro de 2006 terão se passado exatos 30 anos dessa entrevista memorável, em que Borges, então com 77 anos, revela-se triste, amargurado, um gigante insistindo-se uma insignificância, ainda que considerando-se acima de toda a mediocridade circundante, como os políticos, os negros, os poetas desprovidos de talento (como Pablo Neruda!) e essa América Latina que não passa de "um romance mal escrito".
Moído pelo tempo, pelo ressentimento, pela tristeza recente da perda da mãe (com 99 anos! "para que tanto?"), cego e só: a dor e a descrença em pessoa: eis o poeta universal, farol imenso desde Buenos Aires -ironia das ironias, ainda maior do que a de ter se tornado guardião dos livros quando já não podia lê-los... Tudo captado pela pena sensível e pela cêmera esperta de um boquiaberto Álvaro de Faria.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A universidade do século XXI



A universidade do século XXI, de Boaventura de Souza Santos, pela Cortez

Boaventura de Souza Santos, uma vez mais, a partir de sua perspectiva de que nem tudo está dado e perdido, num mundo de uma nota só, faz soar alguns instrumentos que lembram aos de fraca memória o quanto a boa música do pensamento criativo, democrático e emancipatório é viva, boa e faz falta, muita falta.
Em A universidade do século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da Universidade, recém-publicado pela Cortez (São Paulo, 2004), faz uma consistente análise dos acontecimentos que, nos últimos dez anos, agravaram a crise da Universidade, tão bem diagnosticada por ele mesmo em Pelas Mãos de Alice: o Social e o Político na Pós-Modernidade (da mesma Cortez, 1995).
Ao invés de ceder à tentação do procedimento, nocivo mas muito encontradiço, de listar e malhar fatos e acontecimentos gerados pela globalização e pelo neoliberalismo (esses dois malvados tão resistentes e perseverantes...), o autor vai muito além, discutindo diretrizes para o que, no título do livro, aparece como “reforma democrática e emancipatória”, mas que pode ser melhor definida como uma contra-reforma criativa, democrática e emancipatória, para que fique bem situada no contexto da discussão em curso, no Brasil, sobre a reforma do ensino superior (que é mais ampla do que a reforma universitária, como o próprio Boaventura alerta).

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A dança do universo



A dança do universo, de Marcelo Gleiser, pela Companhia das Letras

Os avanços obtidos pela Física, desde a teoria da relatividade de Eistein e após a fundação da mecânica quântica, levam necessariamente a uma nova visão do Universo e da vida. Mas para o homem comum é difícil abandonar o modo de ver a realidade propiciado pela Física newtoniana, devido à facilidade matemática e observacional nela contida, em contraste com o mundo relativo e infinitamente pequeno e veloz da Física moderna, ainda em construção.

Em "A dança do universo", Marcelo Gleiser faz uso de todo o seu talento de físico e de divulgador científico para conduzir o leitor pelo menos à compreensão dos passos fundamentais que a Física e a Cosmologia deram desde seu nascedouro até os dias atuais. Faz isso com a maestria de bons contadores de história (capazes de prender a atenção), com a clareza de um homem das ciências exatas e com a leveza de alguém que está tratando com prazer daquilo que mais gosta.

A forma escolhida por Gleiser para popularizar a compreensão de alguns aspectos de interesse geral da Física é muito instigante. Ele parte dos mitos de criação e chega à teoria do big-bang, num trajeto em que fica claro que tanto nos mitos de criação (de natureza religiosa), quanto nas recentes teorias físicas e cosmológicas (científicas) há um ser humano curioso (querendo entender os mistérios da natureza e da vida) e carente (sempre à procura de se reconfortar diante de sua finitude e de suas limitações).

Nos simples mitos de criação e nas teorias cosmológicas obtidas a partir de sofisticados racicíonios e experimentos, sempre "A pergunta": quando e como tudo começou?

No livro, também boas pistas para decidir sobre a compatibilidade ou não entre ciência e fé.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

The Buenos Aires Affair

The Buenos Aires Affair, de Manuel Puig, pela José Olympio Ed.

Morte. Assassinato e suicídio: em ambos os casos a vida é brutalmente suprimida; em ambos, também, as mãos do desespero, do descontrole, do desequilíbrio; distintas mas semelhantes formas de morrer. Um laudo detalhado de uma autópsia, uma descrição vívida do que ocorre a cada órgão do corpo nos primeiros momentos depois da morte.

Vida. Leo e Gladys: vidas dramaticamente marcadas por incontrolável desejo sexual e formas não convencionais de satisfazê-lo. Artistas deprimidos, com histórias pessoais marcadas por sofrimentos mal compreendidos; destrutivos e auto-destrutivos; na arte um lenitivo. Leo, trágico fim, uma auto-punição. Gladys, dúvida entre abraçar a morte ou suportar a vida real, prosaica e pesada demais para sua sensibilidade à flor da pele.

"Buenos Aires Affair" é uma densa reflexão em que Mario Puig experimenta, inova, comove, colocando lado a lado a poesia e a angústia, a política e o cinema. Corpos e almas nus e crus, conduzidos pela pulsão sexual freudiana e encurralados pelo quotidiano, enquanto crianças sorriem de satisfação após o carinhoso talquinho colocado pela mamãe junto com a nova fralda, enquanto heróis e heroinas desfilam na tela fazendo parecer que vale a pena. Mesmo quando a alma é pequena?

domingo, 24 de maio de 2009

Quem matou Palomino Molero



Quem matou Palomino Molero, de Mario Vargas Llosa, pela Arx.

Um crime hediondo, num lugarejo estagnado e marcado por diferenças sociais e um estilo autoritário de política. Um dupla de policiais típica da América de baixo, tentando encontrar o culpado ou os culpados. Uma trama bem urdida sobre uma paisagem humana composta por gente simples, levando uma vida difícil, imersas nas idas e vindas em busca de algum prazer, um pouco dele que seja, a qualquer custo - fome de amor.
Lituma, o detetive auxiliar da dupla de investigadores é o observador atento, tanto sensível quanto possível, para um "inconquistável". Admirado por ele, por sua astúcia e integridade (até certo ponto...), o tenente Silva, fissurado pela roliça Adrianinha - casada, vários filhos.
O crime é desvendado - apesar de algumas controvérsias ("os peixes grandes sempre escapam") - mas as angústias e os desencontros de amar apenas se insinuam em sua complexidade, por trás de prosaicos movimentos. E fica nio ar a perguntas: que tipo de mulher é essa Alícia?

domingo, 10 de maio de 2009

O caçador de pipas



O caçador de pipas, de Khaled Housseini, pela Nova Fronteira

Esta é a história da amizade entre Amir e Hassan, uma história marcada por ternura e desavenças, por lealdade e traição.É também a história da relação ao mesmo tempo de subordinação e de afetividade entre o pai de Amir e o pai de Hassan, incluindo um amigo de todos eles, Rahim.
As duas histórias se entrelaçam e se misturam aos desastres que assolaram o Afeganistão, desde a invasão soviética até depois da ascensão dos talibãs.
Histórias dentro de histórias, ao estilo cativante das Mil e Uma Noites, do qual Khaled Hosseini revela-se um lídimo herdeiro contemporâneo.
Mentiras, traições, tirania, estupros, assassinatos – numerosas formas de maldade e brutalidade, lado a lado com nobres sentimentos – tecem a trama da primeira à última página, com a notável ausência de ódios e ressentimentos: “Há um jeito de ser bom de novo”. Embora exija coragem e determinação.
Mas existem homens capazes de uma vida inteira de maldades. E países – como o Afeganistão – com gente incorrigivelmente resignada para conviver com eles repetindo que, apesar de tudo, “a vida continua...”

terça-feira, 5 de maio de 2009

Os amores difíceis




Os amores difíceis, de Italo Calvino, pela Companhia das Letras.

Treze “aventuras” reveladoras de amores difíceis: de um soldado, de um bandido, de uma banhista, de um empregado de escritório, de um fotógrafo, de um viajante, de um leitor, de um míope, de uma esposa, de um esposo e uma esposa, de um poeta, de um esquiador, de um automobilista. Mais duas desventuras de casais perturbados por pelas dificuldades quotidianas, que não são, todavia, a verdadeira causa dos desconfortos que tentam dissipar. Em todos os casos, um olhar (quase voeyrista) sobre a natureza prosaica da vida quotidiana, esporádica e passageiramente esquecida pelos raptos do desejo, sempre precedidos pelo jogo da sedução, às vezes difícil e angustiante, dada a natureza aleatória de suas regras.
Uma leitura pessimista das possibilidades amorosas? Um mosaico dos ardis da conquista? Uma visão desencantada dos amores? Uma constatação do quanto são desajeitados – e às vezes cômicos - os seres humanos em sua busca um do outro? Expressão literária de uma visão por demais racionalista dos sentimentos? De tudo isso um pouco? Nada disso? Mais que isso?
Qualquer que seja a resposta, o leitor estará diante de quinze contos talentosamente compostos, capazes de leva-lo ao mesmo tempo a contraditórios movimentos da alma e a reflexões profundas (embora não conclusivas) sobre sua própria existência. Coisas da boa arte literária, sobejamente dominada por Ítalo Calvino.